* Por Jean Helfenberger

2008, um sábado de manhã.

Com riqueza nos detalhes, lembro como se fosse hoje. Era a minha estreia como técnico da categoria sub 11 do Grêmio Esportivo 25 de Agosto, clube que sempre frequentei e onde me sinto em casa.

Entrei em campo com os coletes na mão. Mais de 30 garotos me olhavam. Eu nunca tinha visto nenhum deles jogar e precisaria selecionar 22. Pensei comigo, vou perguntar, primeiramente, a posição de cada um.

Entre os 30, mais da metade queria ser atacante. Normal, quem não gosta de fazer gol? Um, porém, magrelo, fraco como um grilo, disse que era lateral esquerdo.

Achei estranho.

Será que alguém, aos 11 anos, tem ideia do que faz um lateral esquerdo?

Ele era o único que vestia a camisa do JEC, justamente no período que o clube estava sem série.

Postei os times passando certo sufoco para separar tantos atacantes. Entre os zagueiros, foi moleza. Afinal, havia quatro gordinhos entre os 30 e eles desempenharam bem a função.

Com a bola no centro do campo, o sonho teve o seu início.

Com menos de 10 minutos, chamei o Sandro, meu auxiliar, e externei meu sentimento: “Só precisamos de mais 10 jogadores para o campeonato. Um nós já temos. O grilo da camisa do JEC é diferente”.

Ele realmente era.

Parecia um veterano em campo. Ótimo passe, bom no apoio e firme na marcação. Não abriu a boca durante o treinamento e não reclamou de nenhuma orientação.

Não precisava, o seu futebol falava por si.

No final do treino, todos os meninos eram ofertados com uma laranjinha e um pão com queijo e mortadela. Tudo de graça, oferecido pelo clube, assim como a própria escolinha. Aproveitei para conversar com o Grilo durante o lanche.

Infelizmente, o 25 não tinha estrutura para disputar categorias maiores. Em uma das finais contra o São Paulo, o adversário tinha umas 20 bolas para o aquecimento. Nós tínhamos apenas duas. Uma batalha entre Davi e Golias.

Foram quatro citadinos pelo 25 de Agosto. De 2008 a 2011, com títulos em 2008, 2009 e 2011. Todas as conquistas com o Grilo como capitão da equipe.

Durante todos esses anos, ele recebeu inúmeras propostas, mas nunca aceitou. Seu pai, extremamente correto, sempre deixou claro que estaria ao lado do 25 de Agosto enquanto ele disputasse as competições.

Isso me assustava.

André Baumer, por exemplo, hoje jogador do JEC e emprestado ao Flamengo, saiu para a escolinha do São Paulo, na época. Passou no teste e foi morar em Cotia. Esse era o caminho. Como poderíamos competir com a maior estrutura de base do Brasil?

Neste grupo de 20 meninos, eu ganhei algumas pessoas para a minha família. É lógico que eu tinha um carinho especial por todos, mas três se tornaram meus afilhados de crisma. Um deles era o capitão de todas as minhas conquistas.

Sem aquele grupo eu não quis mais ser treinador.

Eu tinha um sonho e acho que nunca compartilhei com ninguém. Gostaria que, pelo menos, um deles chegasse ao futebol profissional. A preferência, se não fosse pedir muito, era pra que isso acontecesse com a camisa do JEC.

Um dia, recompensando a grande lealdade do Grilo, resolvi leva-lo ao time infantil do Joinville.

Cheguei na Arena, no dia da apresentação, e demonstrei certa ansiedade. O Grilo, como de costume, parecia um veterano. Era tudo oposto.

O técnico do sub-15 era o ídolo Zé Carlos Paulista. Sem campo para treinar, a atividade foi realizada no estacionamento da Arena.

Eu só acredito porque estive lá.

O treino foi entre pedras e poças de água, um descaso total estampado no Jornal A Notícia no dia seguinte.

Voltamos pra casa e fiquei imaginando como contar para um pai que o filho dele estava treinando no estacionamento. Cheguei e, sem imaginar que algo pudesse maquiar tamanha barbaridade, disse ao pai.

“Faça o que você achar melhor”, ele respondeu.

No outro dia, o Grilo novamente foi treinar. Aos poucos foi conquistando o seu espaço e se tornou titular em todos os jogos. Subiu ao juvenil e encontrou o técnico Fabinho Santos, hoje comandante do profissional do JEC.

Titular e vice-campeão na equipe juvenil, o lateral teve uma transição complicada ao subir para o time júnior. Ficou quase um ano sem ser relacionado e tenho certeza que pensou em desistir em alguns momentos.

Toda semana eu o procurava para conversar. Era preciso mostrar que no futebol tudo muda muito rápido.

A oportunidade surgiu em 2015 na estreia da Copa do Brasil sub-20, contra o Grêmio, na Arena Joinville.

Aquela campanha, aliás, foi espetacular, com eles passando por Grêmio, Coritiba e Flamengo. Só caíram para o São Paulo, referência em base no Brasil, na semifial.

Em 2016, outro golpe duro. O time júnior do Joinville ficou quase seis meses sem jogar. Como seria possível motivar um atleta nesta situação?

Novamente, procurei levantar a sua cabeça  dizendo que muita coisa boa estava por vir.

Em 2017 o meu capitão foi integrado ao elenco profissional do JEC, mas eu nunca pedi a sua escalação. Afinal, ele ainda é um jogador em formação e precisa corrigir algumas coisas mesmo com um grande potencial.

Ontem, meu sonho foi realizado. Foi a cereja do bolo.

Parecia algo surreal, aquele Grilo que bebia laranjinha estava disputando bolas com o Fred, atacante com duas Copas do Mundo no currículo.

Foi demais.

Sinceramente, ainda não sei onde o Gustavo vai chegar. Talvez em dois anos ele esteja fazendo outra coisa da vida. Talvez esteja jogando em alto nível.

Tudo ainda é muito novo para cravar algo.

A única coisa que eu sei é que daqui 50 anos ele vai abrir qualquer roda de resenha e dirá que marcou o Fred.

Ou, pensando melhor, como o conheço muito bem ele, sei que jamais fará isso.

Já o padrinho, dele contará diversas vezes esta história. Podem anotar.

Eu resolvi escrever tudo isso para deixar claro que a perseverança é o único caminho para se alcançar um sonho.

Ontem, no Horto, dentro da camisa 4 do JEC estava o Grilo, o meu capitão e o meu afilhado. Todos correndo e jogando pelo o meu sonho.

Obrigado. Muito obrigado meu Deus.

Jean Helfenberger é jornalista. Especialista em futebol de base, atua como comentarista na 89 FM.

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