O Mogi Mirim não entrou em campo nesta tarde. A partida era em casa, contra o Ypiranga, válida pela quinta rodada do returno da Série C. Por regulamento, a equipe gaúcha venceu por 3 a 0. Possivelmente, caso confirmada a desistência dos paulistas, todos os jogos deles serão anulados.

Com isso, o Joinville subirá na tabela de classificação e ocupará o quarto lugar.

Mas, a desistência do Mogi era uma fava contada. Nos últimos dias, diversos jogadores deixaram o clube. Com salários atrasados em até três meses – dependendo das situações – o clube paulista já afirmou que não tem como se manter. Falta dinheiro, falta gestão. Falta tudo.

Hoje, o presidente Luiz Henrique de Oliveira, em entrevista à imprensa local, avisou que o clube está abandonando a competição. Muitos envolvidos, porém, já abandonaram antes…

O JEC jogou com o Mogi Mirim no dia 10 de julho. De carro, fomos até a cidade no interior paulista. Foi uma viagem desgastante, porém animadora. O Tricolor vinha empolgado pela estreia do técnico Pingo e poderia, enfim, conquistar a primeira vitória fora de casa na Série C.

O jogo era às 21 horas, mas, como de costume, chegamos antes. Como em todas as outras partidas, temos alguns compromissos profissionais para cumprir mais cedo. Chegamos por volta das 16h30.

O ideal era participar da programação da rádio e, por volta das 19 horas, fazer um lanchinho, aproveitando o período da Voz do Brasil. Conhecer a gastronomia requintada dos estádios faz parte da nossa profissão. Um cachorro quente diferente, um espetinho mal passado ou uma pipoca com queijo. Cada lugar tem a sua peculiaridade.

Enfim, às 19 horas, deixamos as cabines e nos deparamos com uma cena inusitada. Não havia ninguém vendendo o cachorro quente, nem a pipoca, muito menos o espetinho. Os portões já estavam abertos, mas a expectativa de público não passaria dos 100 torcedores.

Com três rebaixamentos seguidos – Série B para a C do Brasileiro, Série A1 para A2 do Paulista e A2 para A3 – o Mogi Mirim viu sua torcida desaparecer do estádio. Atualmente, a média é de 156 testemunhas a cada jogo da Série C.

Entre todos as partidas que eu já trabalhei, esta foi a primeira que me fez sentir na pele o reflexo da pobreza do futebol brasileiro. Um time em frangalhos, sem apoio da torcida, sem o tio do cachorro quente. Se o jogo não era viável para o vendedor ambulante nas arquibancadas, pra quem ele seria?

Foi triste.

Tentamos. Procuramos dentro e fora do estádio. Fomos para uma praça no outro quarteirão, mas também não havia nada. Enfim, paramos no MC Donald’s, já com os coletes de imprensa, e colocamos um sanduíche pra dentro. Todos os presentes olharam pra gente. Estávamos com pressa e com uniforme de trabalho.

Ficaríamos no estádio até a meia noite. Não tinha como deixar de comer.

O jogo começou, a polêmica do gol aconteceu e os times empataram em 1 a 1.

O nosso trabalho foi feito, a transmissão finalizada. Voltando às cabines, porém, ainda era preciso recolher os equipamentos, atualizar o blog com os gols e apurar os contornos da confusão feita pelo trio de arbitragem.

Tudo, no entanto, foi abreviado. No mesmo momento que retornamos às cabines, o administrador do estádio disse que tínhamos que sair na seqüência, que não poderíamos nos estender. O motivo era simples: A conta de luz do estádio estava atrasada em três meses e o carro da Eletropaulo estava na rua ameaçando desligar tudo no poste.

Em três minutos, encerramos as coisas, guardamos tudo e saímos com o rabo entre as pernas.

Na saída, passamos pelo alojamento do estádio, onde muitos dos jogadores que jogaram contra o JEC moram. O local é precário, bem precário. Não existe glamour ou boa alimentação. Somente um ventilador de teto, uma televisão antiga e algumas camas. Os jogadores, com celulares em mãos, compartilhavam o resultado com amigos e familiares. Era o consolo após mais um dia.

Nós retornamos, fomos pro hotel e, no dia seguinte, de carro, chegamos em Joinville. Na lembrança ficamos com um estádio gelado, sem calor de uma torcida e sem a alma de um clube.

É preciso repensar muito a forma como o futebol é tratado no Brasil. O W.O. desta tarde, em Mogi Mirim, foi apenas a ponta do iceberg. Os clubes tem problemas diariamente. Salários, alimentação, moradia, etc. A conta nunca fecha. Não podemos continuar coniventes desta situação. É constrangedor.

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