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Categoria: Artigo

O futebol imita a vida

Antes mesmo da bola rolar nesta tarde, o Joinville já será consagrado um vencedor. Independente do resultado contra a Chapecoense, na Arena Condá, não serão poucos os torcedores que irão continuar orgulhando-se do seu time de coração.

É duro cair.

O futebol imita a vida. Ora estamos bem, ora estamos mal. Trabalho, família, amigos, lazer. Abençoados são os que conseguem manter a balança equilibrada com todas as situações do dia a dia.

Na bola não é diferente. Você só colhe o que plantar. O JEC, após dois rebaixamentos seguidos, chegou destruído para a temporada 2017. Com muita desconfiança, iniciou o ano com um time repleto de garotos, um técnico inexperiente e uma diretoria sem expressão, reforçada por diversas escolhas duvidosas.

Todos tiveram medo. Todos.

Não havia base sólida para o trabalho, pois tudo estava começando literalmente do zero. Não cair no Estadual era o objetivo, não passar vergonha na Primeira Liga e na Copa do Brasil também tinham importância.

Depois de anos trágicos, nos acostumamos com tudo de pior que pode acontecer. Foram três vices estaduais, 38 rodadas no Z4 da Série A e um rebaixamento melancólico na Série B, após a improvável vitória do Oeste contra o Náutico.

O nome do JEC estava na lama.

De repente, com muito trabalho as coisas foram mudando. A bola começou a entrar e as escolhas foram tomadas com mais sabedoria. Hoje, é notório que o clube segue afundado em um caos financeiro, mas o problema seria muito maior caso o desempenho em campo não fosse satisfatório. Alguém duvida?

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O Joinville avançou à inédita quarta fase da Copa do Brasil, foi eliminado com uma única derrota – para o Atlético/MG, em Belo Horizonte – na Primeira Liga e segue brigando pela vaga na final do Campeonato Catarinense.

Qual dos mais otimistas poderiam prever isso no início do ano?

Portanto, podemos refletir: Dentro de campo, o primeiro semestre já valeu, alheio ao que acontecer nesta tarde. Calmamente, impulsionado pelos resultados – sempre eles – as coisas se encaixaram.

Obviamente que falta estrutura fora das quatro linhas, organização em processos básicos, profissionalismo em vários setores. Sim, falta bastante coisa ao Joinville. Mas isso é papo pra uma outra conversa…

Hoje, torcedores, curtam o momento. Saboreie o fato do JEC chegar vivo na penúltima rodada do campeonato. Aproveitem a chance. Divirtam-se.

Feliz Páscoa.

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Obrigado, Grilo

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    Foto: Beto Lima/ JEC.com.br
  • grilo 2

* Por Jean Helfenberger

2008, um sábado de manhã.

Com riqueza nos detalhes, lembro como se fosse hoje. Era a minha estreia como técnico da categoria sub 11 do Grêmio Esportivo 25 de Agosto, clube que sempre frequentei e onde me sinto em casa.

Entrei em campo com os coletes na mão. Mais de 30 garotos me olhavam. Eu nunca tinha visto nenhum deles jogar e precisaria selecionar 22. Pensei comigo, vou perguntar, primeiramente, a posição de cada um.

Entre os 30, mais da metade queria ser atacante. Normal, quem não gosta de fazer gol? Um, porém, magrelo, fraco como um grilo, disse que era lateral esquerdo.

Achei estranho.

Será que alguém, aos 11 anos, tem ideia do que faz um lateral esquerdo?

Ele era o único que vestia a camisa do JEC, justamente no período que o clube estava sem série.

Postei os times passando certo sufoco para separar tantos atacantes. Entre os zagueiros, foi moleza. Afinal, havia quatro gordinhos entre os 30 e eles desempenharam bem a função.

Com a bola no centro do campo, o sonho teve o seu início.

Com menos de 10 minutos, chamei o Sandro, meu auxiliar, e externei meu sentimento: “Só precisamos de mais 10 jogadores para o campeonato. Um nós já temos. O grilo da camisa do JEC é diferente”.

Ele realmente era.

Parecia um veterano em campo. Ótimo passe, bom no apoio e firme na marcação. Não abriu a boca durante o treinamento e não reclamou de nenhuma orientação.

Não precisava, o seu futebol falava por si.

No final do treino, todos os meninos eram ofertados com uma laranjinha e um pão com queijo e mortadela. Tudo de graça, oferecido pelo clube, assim como a própria escolinha. Aproveitei para conversar com o Grilo durante o lanche.

Infelizmente, o 25 não tinha estrutura para disputar categorias maiores. Em uma das finais contra o São Paulo, o adversário tinha umas 20 bolas para o aquecimento. Nós tínhamos apenas duas. Uma batalha entre Davi e Golias.

Foram quatro citadinos pelo 25 de Agosto. De 2008 a 2011, com títulos em 2008, 2009 e 2011. Todas as conquistas com o Grilo como capitão da equipe.

Durante todos esses anos, ele recebeu inúmeras propostas, mas nunca aceitou. Seu pai, extremamente correto, sempre deixou claro que estaria ao lado do 25 de Agosto enquanto ele disputasse as competições.

Isso me assustava.

André Baumer, por exemplo, hoje jogador do JEC e emprestado ao Flamengo, saiu para a escolinha do São Paulo, na época. Passou no teste e foi morar em Cotia. Esse era o caminho. Como poderíamos competir com a maior estrutura de base do Brasil?

Neste grupo de 20 meninos, eu ganhei algumas pessoas para a minha família. É lógico que eu tinha um carinho especial por todos, mas três se tornaram meus afilhados de crisma. Um deles era o capitão de todas as minhas conquistas.

Sem aquele grupo eu não quis mais ser treinador.

Eu tinha um sonho e acho que nunca compartilhei com ninguém. Gostaria que, pelo menos, um deles chegasse ao futebol profissional. A preferência, se não fosse pedir muito, era pra que isso acontecesse com a camisa do JEC.

Um dia, recompensando a grande lealdade do Grilo, resolvi leva-lo ao time infantil do Joinville.

Cheguei na Arena, no dia da apresentação, e demonstrei certa ansiedade. O Grilo, como de costume, parecia um veterano. Era tudo oposto.

O técnico do sub-15 era o ídolo Zé Carlos Paulista. Sem campo para treinar, a atividade foi realizada no estacionamento da Arena.

Eu só acredito porque estive lá.

O treino foi entre pedras e poças de água, um descaso total estampado no Jornal A Notícia no dia seguinte.

Voltamos pra casa e fiquei imaginando como contar para um pai que o filho dele estava treinando no estacionamento. Cheguei e, sem imaginar que algo pudesse maquiar tamanha barbaridade, disse ao pai.

“Faça o que você achar melhor”, ele respondeu.

No outro dia, o Grilo novamente foi treinar. Aos poucos foi conquistando o seu espaço e se tornou titular em todos os jogos. Subiu ao juvenil e encontrou o técnico Fabinho Santos, hoje comandante do profissional do JEC.

Titular e vice-campeão na equipe juvenil, o lateral teve uma transição complicada ao subir para o time júnior. Ficou quase um ano sem ser relacionado e tenho certeza que pensou em desistir em alguns momentos.

Toda semana eu o procurava para conversar. Era preciso mostrar que no futebol tudo muda muito rápido.

A oportunidade surgiu em 2015 na estreia da Copa do Brasil sub-20, contra o Grêmio, na Arena Joinville.

Aquela campanha, aliás, foi espetacular, com eles passando por Grêmio, Coritiba e Flamengo. Só caíram para o São Paulo, referência em base no Brasil, na semifial.

Em 2016, outro golpe duro. O time júnior do Joinville ficou quase seis meses sem jogar. Como seria possível motivar um atleta nesta situação?

Novamente, procurei levantar a sua cabeça  dizendo que muita coisa boa estava por vir.

Em 2017 o meu capitão foi integrado ao elenco profissional do JEC, mas eu nunca pedi a sua escalação. Afinal, ele ainda é um jogador em formação e precisa corrigir algumas coisas mesmo com um grande potencial.

Ontem, meu sonho foi realizado. Foi a cereja do bolo.

Parecia algo surreal, aquele Grilo que bebia laranjinha estava disputando bolas com o Fred, atacante com duas Copas do Mundo no currículo.

Foi demais.

Sinceramente, ainda não sei onde o Gustavo vai chegar. Talvez em dois anos ele esteja fazendo outra coisa da vida. Talvez esteja jogando em alto nível.

Tudo ainda é muito novo para cravar algo.

A única coisa que eu sei é que daqui 50 anos ele vai abrir qualquer roda de resenha e dirá que marcou o Fred.

Ou, pensando melhor, como o conheço muito bem ele, sei que jamais fará isso.

Já o padrinho, dele contará diversas vezes esta história. Podem anotar.

Eu resolvi escrever tudo isso para deixar claro que a perseverança é o único caminho para se alcançar um sonho.

Ontem, no Horto, dentro da camisa 4 do JEC estava o Grilo, o meu capitão e o meu afilhado. Todos correndo e jogando pelo o meu sonho.

Obrigado. Muito obrigado meu Deus.

Jean Helfenberger é jornalista. Especialista em futebol de base, atua como comentarista na 89 FM.

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Feliz Aniversário

Querido JEC,

Hoje é seu aniversário. Quem diria! São 41 anos. Histórias contadas com muita emoção e calor da torcida.

Assim como diversos de nós, você ganhou e perdeu neste rico período. Acontece. Tudo que  é plantado é colhido, principalmente no futebol.

Porém, mesmo com o sofrimento dos últimos dois anos – com dois dolorosos rebaixamentos seguidos -, ninguém foi mais vencedor em Santa Catarina desde 1976. São 12 Campeonatos Estaduais, quatro Copas Regionais, uma Recopa Sul-Brasileira, dois títulos Nacionais e outros diversos troféus. Um cartel inapelável contra qualquer outro clube do estado.

Não é difícil perceber que você, invariavelmente, sofre com as transições políticas. Foi assim desde a saída de Waldomiro Schützler, o seu primeiro grande presidente. Parafraseando Nelson Rodrigues: Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos. Enfim, trocas que te causaram dano, mas não apagaram teu glorioso nome ou derrubaram a sua linda história.

Em 41 anos você mostrou que é possível se reerguer quando poucos esperam.

Levando felicidade para toda parte, projetastes o nome de tua cidade para o Brasil. Com teu fantástico time octacampeão colocou Joinville nas principais rotas país e impulsionando o crescimento de outras áreas. “Existem coisas que o futebol faz em suas comunidades que transcende as quatro linhas”, como disse a multi campeã Brandi Chastain.

É fato que nenhuma moeda no mundo poderá pagar o seu valor.

Em um curto período de cinco anos deixastes a Série D para alcançar – novamente – a primeira divisão nacional. Transformando a Arena Joinville em sua catedral e reiterou o sentimento guardado no coração de cada torcedor. Alegrias, títulos, comemorações e até mesmo as derrotas. O astro escocês Bill Shankly já dizia que “O futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante que isso”.

Hoje, vives em um novo período de reconstrução. Seja dentro ou fora de campo, suas acertadas ou equivocadas decisões testam a fé do torcedor. Mas isso é comum. Como alertou o guru futebolístico, Eduardo Galeano, lembrando-se da meninada com a qual jogava suas peladas no Uruguai. Terminadas as partidas, saíam todos abraçados, cantando: “Ganamos, perdimos, igual nos divertimos”.

Feliz Aniversário.

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O mundo de Hemerson Maria

Foto: João Lucas Cardoso

Após a vitória no final de semana, contra o Avaí, o elenco do Joinville recebeu folga geral. Ninguém treinou. Tudo por um dia diferente – descanso com a família no domingo de Páscoa.

Pensamentos longos e, possivelmente, vazios. Raros momentos de lazer e descontração longe das quatro linhas. Por incrível que pareça, uma alegria que não foi gerada no êxito de uma jogada ensaiada. Minutos que voam assim como a intensidade da bola. Pouco pela entrega, suficiente pelo momento. Algo para quem investiu tempo, estudos e conhecimento à prática do futebol moderno.

Este é Hemerson José Maria.

Até janeiro, o manezinho da Procasa, região carente da grande Florianópolis, tinha uma rotina simples e objetiva. Analisar as notícias matinais, observar a movimentação no twitter – rede social predileta – acompanhar os programas em TV fechada e assistir muitos jogos.

“Em alguns momentos a minha mulher dizia: Você vai ficar louco”, refere-se o treinador sobre a quantidade de partidas vistas em um curto espaço de tempo. “Eram dois, três jogos por dia. Eu acompanhava, pelo menos, 15 partidas durante na mesma semana”.

No entanto, esta engrenagem demorou um pouco para funcionar.

Após a saída do JEC em junho de 2015, Maria passou por um período de desintoxicação, recusando, inclusive, propostas de clubes como Fortaleza e Remo. Extenuado após 18 meses consecutivos de trabalho no Joinville, um refresco para a mente era necessário. Respirar a comunidade, buscar a filha Hérika no colégio, fazer um lanche no shopping. Passar alguns finais de semana na praia, dividindo o tempo entre o real e o imaginário esportivo. “Final de semana era complicado. Eu aproveitava com a família até o horário dos jogos. Depois, era só futebol”.

Parte importante para a construção de um trabalho vencedor, Hemerson Maria dá prioridade aos jogos de futebol nacional. “Lá fora posso aprender conceitos, mas é importante eu examinar a minha realidade aqui”. Diante da televisão, um caderno com mais de 500 nomes de atletas, divididos entre cores – vermelhos, para jogadores com brevê de série A, amarelos para Série B e laranja para outras divisões. “Eu assisto os jogos, anoto e depois vou pesquisar. Entro nos sites de estatísticas, consulto o histórico e posteriormente incluo o nome no caderno”.

Apreciador do sistema defensivo de Diego Simeone, técnico do Atlético de Madrid, Maria não tem uma grande figura como ídolo na profissão. Mesmo sem um personagem fixo, é impossível esconder a admiração pessoal por Adenor Leonardo Bachi, o Tite, técnico do Corinthians. ”Hoje todo mundo fala em (Pep) Guardiola. Mas, usar todos os conceitos dele aqui no Brasil é uma utopia. As valências dos atletas são diferentes”. Para o treinador, a linha do comandante corintiano, alinhada à postura tática de Carlo Ancelotti, ex-técnico do Real Madrid, é o norte vencedor para um trabalho estável.

Do mesmo modo, assim como Guardiola, Hemerson é adepto da compactação entre as linhas, reduzindo o espaço de duelo, aumentando a posse de bola, o jogo vertical e utilizando o goleiro com os pés. Um campo preenchido de, no máximo, 30 metros, suficiente para sufocar o adversário e ditar a rotação durante os 90 minutos. “Hoje o goleiro joga mais com os pés do que com as mãos. Em alguns jogos, ele irá fazer, no máximo, cinco defesas. Porém, jogando com a bola no chão, ele pode contribuir ainda mais”.

Seduzido pelo 4-3-3 (re)consagrado mundialmente em 2016, o técnico não esconde a importância das variações dentro do jogo. “Hoje, as equipes jogam nesta formação e as outras vêm com o espelho. É igual”. “Qual a função do ponta? Marcar o lateral. No meio, todo mundo vai se marcar. E o único setor que você terá superioridade será na defesa, pois é um centroavante contra dois zagueiros. Aí a importância de jogadores que saibam jogar”. Bingo! É o fim do beque brucutu, do jogador titular apenas pela imposição física. No time ideal de Maria, o primeiro responsável pelo futuro da jogada ofensiva é o zagueiro central.

Assim como os companheiros de profissão, Hemerson tem uma rotina fielmente seguida todos os dias. Deixar o hotel às 8h30, chegar no Centro de Treinamento e realizar fisioterapia. Em 2015, ele realizou uma cirurgia no quadril, ocasionada pelo desgaste físico e precisará do acompanhamento médico pelo resto da vida. “Depois disso eu vou para a minha sala, programo os treinos e entro de cabeça. É treino, vídeo, conversa. Diversos dias eu saio daqui às nove da noite”.

Sem a presença da mulher Eliane e da filha que seguem em Florianópolis, o treinador também abre mão da vida social. E isso não lhe incomoda. Faz parte do show, do objetivo. Porém, alguns momentos de solidão também fazem parte do roteiro. “Em dias de folga é complicado. Você trabalha, planeja e assiste alguns jogos. Aí, olha no relógio e o horário não passa. Não é fácil”.

Satisfeito com a melhora tática e emocional do Joinville neste início de temporada, Hemerson Maria seguirá trabalhando. Incorporando conceitos, quebrando paradigmas e tentando novamente gravar seu nome entre os grandes do clube. Historias que se entrelaçam. Um clube vencedor, um técnico estrategista. Não existe omelete sem ovos, diria o saudoso Otto Glória. Hemerson é a parte do Joinville; o JEC é parte de Maria.

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